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G.
I. Gurdjieff Desde o começo Gurdjieff distinguiu-se dos outros meninos na escola por seu questionamento insaciável. Procurou orientação de pessoas mais velhas entre as inúmeras seitas da região, leu vorazmente e, em tenra idade, deixou seu lar em busca de homens mais sábios ou irmandades que pudessem possuir chaves para o conhecimento que tinha se tornado uma necessidade para a sua vida. Que tenha recebido instruções de mestres espirituais do Oriente não pode haver dúvida. Durante vinte anos, até 1909, Gurdjieff esteve buscando e viajando, preparando-se adequadamente, dirigido e influenciado pelo que ele chama "o círculo interior da humanidade", os portadores do conhecimento que buscava. Durante esse tempo tomou consciência da tarefa que foi chamado a assumir: chamar a humanidade para um conhecimento do significado da vida sobre a terra. Em 1913 abriu esse trabalho para um pequeno grupo em Moscou. Depois com a chegada da guerra, deslocou-se para Essentuki, Tíflis, Costantinopla e finalmente para a França, onde reabriu seu Instituto para o desenvolvimento harmonioso do Homem no castelo de Prieuré perto de Paris. A vida em cada um desses centros refletia a estrutura da própria realidade, até o grau que podiam compreender aqueles que tinham ido lá para trabalhar a fim de adquirir uma consciência. Todas as condições estavam preparadas para fazê-los sentir que participavam ao mesmo tempo tanto da vida ordinária, onde uma pessoa tem de comprometer-se e encontrar o seu próprio lugar, quanto de um outro mundo onde existe harmonia e paz - um paradoxo que coloca cada um diante de sua própria verdade. A vida como um todo adquiria assim um significado. Em 1924 Gurdjieff já tinha preparado auxiliares para a divulgação de seu método quando sua saúde foi colocada em perigo por um acidente de automóvel. Isso imobilizou-o por vários meses. Alunos que tinham vindo de todas as partes do mundo foram embora e ele encontrou-se virtualmente sozinho, sem recursos e incapaz de falar qualquer língua européia. Achando impossível, sob essas circunstâncias, manter a intensidade da vida necessária no Instituto e supondo que, talvez, já tivesse desempenhado o seu papel, decidiu transmitir diretamente em palavras o conhecimento que tinha recebido. Com esse objetivo planejou as três séries de seus livros. Começando em janeiro de 1925, escreveu continuadamente até abril de 1935, quando parou completamente de escrever. Desde então, e até sua morte em 29 de outubro de 1949, devotou-se intensamente ao trabalho com alunos em Paris, ensinando-os individualmente e em pequenos grupos. Uma vez mais, levando em consideração as condições impostas pela guerra, um padrão definido de vida apareceu. Apesar dos regulamentos e dos racionamentos, as pessoas descobriam uma maneira de chegar até ele todas as noites e desempenhavam as várias tarefas relativas à vida dessa comunidade, quer no que dizia respeito ao dinheiro necessário para o seu sustento ou no que se referia à forma pela qual a ajuda deveria ser dada para aumentar o número de pessoas interessadas em suas idéias. Elas ouviam as leituras de Relatos de Belzebu a seu Neto e Encontros com Homens Notáveis e a música que Thomas de Hartmann compunha sob a força da inspiração de Gurdjieff. Gurdjieff respondia às suas questões, dirigia o seu trabalho sobre si mesmas e ensinava-lhes as danças sagradas conhecidas como Movimentos.
Capítulo Primeiro
O Despertar do Pensar ENTRE todas as convicções que se formaram em minha "presença integral" durante minha vida responsável, ordenada de maneira bem singular, há uma, inabalável, segundo a qual todos os homens - qualquer que seja o grau de desenvolvimento de sua compreensão e quaisquer que sejam as formas de manifestação dos fatores que suscitam em sua individualidade ideais de todos os gêneros - sentem, sempre e por toda parte sobre a Terra, a imperiosa necessidade de pronunciar em voz alta, ou pelo menos mentalmente, toda vez que empreendem alguma coisa de novo, uma invocação, compreensível para toda pessoa, seja ela das mais ignorantes - invocação cujos termos variaram segundo as épocas e que se formula hoje em dia por estas palavras: "Em nome do Pai, e do Filho e do Espírito Santo. Amém". É por isso que, no momento de abordar esta aventura totalmente nova para mim - escrever livros -, começo eu também por esta invocação, que profiro em voz alta, bem nítida, e mesmo, como diziam os antigos tulusitas, com uma "entonação plenamente manifestada"; isto, é claro, na medida em que o permitem os dados já formados em minha presença integral e fortemente enraizados nela, quero dizer, estes dados que se constituem na natureza do homem durante sua idade preparatória e que determinam mais tarde, durante sua vida responsável, o caráter e a força vivificadora dessa entonação. Tendo assim começado, posso estar absolutamente tranqüilo e deveria mesmo, segundo as concepções que nossos contemporâneos se fazem da "moral religiosa", estar plenamente assegurado de que, daqui em diante, em minha nova ocupação, "tudo irá de vento em popa". Enfim, começo assim; e, quanto ao resto, só posso repetir com o cego: "Veremos!". Antes de mais nada, ponho minha própria mão, e o que é melhor, a direita - ela foi levemente machucada, em outros tempos, num acidente, mas, em compensação, é bem minha e, em toda minha vida, nunca me traiu -, coloco-a sobre meu coração, também meu próprio coração (não acho necessário me estender aqui sobre a constância ou a inconstância dessa parte do meu Todo), e confesso francamente que por mim não tenho o menor desejo de escrever; mas me vejo obrigado a isso por circunstâncias independentes de mim, das quais não sei ainda se são acidentais ou se foram criadas propositadamente por forças estranhas: sei apenas que estas circunstâncias me obrigam a escrever, não qualquer bagatela boa de ler para adormecer, senão grossos, e importantes volumes. Seja como for, começo... Sim, mas começar com quê? Ah! diabo! Vai voltar esta sensação tão estranha e tão desagradável, experimentada faz três semanas, enquanto elaborava em pensamento o programa e a ordem das idéias que tinha decidido propagar, sem saber tampouco com que começar? Só poderia ter definido essa sensação por estas palavras: "o medo de ser submerso pela torrente de meus próprios pensamentos". Para fazer cessar essa desagradável sensação, eu teria podido recorrer à funesta faculdade que possuo como todo contemporâneo - já que ela se tornou inerente a nós - de tudo "deixar para amanhã", sem sentir por isso o menor remorso de consciência. E poderia facilmente "deixar para amanhã", pois ainda tinha tempo diante de mim; mas hoje, hélas! isso não é mais possível e, custe o que custar, "nem que eu me arrebente", tenho de começar. Mas, afinal de contas, com que começar? Hurra!... Eureca!... Quase todos os livros a cuja leitura tive acesso em minha vida começavam por um prefácio. Portanto, será preciso, para mim também, começar por algo desse gênero. Digo bem "desse gênero", porque jamais, em toda minha vida, quase desde o momento em que soube distinguir uma menina de um menino, nunca fiz nada, absolutamente nada, como os bípedes meus semelhantes, destruidores dos bens da Natureza; por isso devo eu agora - sou mesmo obrigado a isso por princípio - escrever diferentemente do que o faria qualquer escritor. Em lugar do prefácio de praxe, começarei, portanto, por uma simples advertência. Começar por uma advertência será muito sensato de minha parte, pela simples razão de que isso não contradirá nenhum de meus princípios, sejam orgânicos, psíquicos ou até mesmo "extravagantes". Ao mesmo tempo, isto será completamente honesto, objetivamente falando, naturalmente, porque espero com absoluta certeza, como aliás todos aqueles que me conhecem de perto, que meus escritos façam desaparecer na maioria dos leitores, de uma vez por todas - e não progressivamente como isso se passa para cada um, cedo ou tarde -, todos os "tesouros" que eles possuem, tesouros transmitidos por hereditariedade ou adquiridos por seu próprio labor, sob a forma de "noções tranqüilizantes" que somente evocam imagens suntuosas de sua vida presente ou ingênuos sonhos de futuro. Os escritores profissionais começam ordinariamente suas introduções dirigindo-se ao leitor com todo tipo de títulos pomposos e frases empoladas, cheias de melosa ênfase. Somente nisso seguirei o exemplo deles e começarei, eu também, por uma dessas "frases", evitando, é claro, torná-la tão adocicada quanto aquelas a que eles estão habituados e que manipulam para titilar a sensibilidade de leitores mais ou menos normais... Pois bem... Meus mui queridos, mui honrados, mui decididos e certamente mui pacientes Senhores, e minhas mui queridas, encantadoras e imparciais Senhoras... Desculpem-me! ia esquecer o principal: e minhas nem um pouco histéricas Senhoras!
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